Dinâmicas de casal no momento atual

Desafios e oportunidades.

 

Era uma vez…

Uma Ana que tinha iniciado há pouco a adolescência, que veio de Angola com os pais como “retornada,” em situação económica muito precária, bem diferente da que conheciam até então. Viveu anos em situação economicamente difícil, num local sem as mínimas condições básicas, com os pais demasiado tempo em estado depressivo depois deste revês nas suas vidas; e a Ana num esforço constante e num nível de exigência intenso para limpar a alindar o espaço e tentar , num esforço sem resultados, trazer os pais de volta; de volta à vitalidade, à alegria, ao estarem presentes emocionalmente para si.  

Era uma vez…

Um João que aos 10 anos foi trabalhar para longe da família. Era uma situação habitual nas famílias com menos recursos. O ordenado era um contributo para o sustento da família e dos muitos irmãos mais

 novos. 10 anos. Sozinho. Dormia e comia num quartinho no fundo da casa dos donos da quinta. Voltava a casa alguns fins de semana, não muitos porque era longe e dispendioso e porque ao fim de semana também dava jeito trabalhar e ganhar mais algum dinheiro. O desamparo que sentiu foi tão intenso…  Para poder sobreviver desenvolveu como proteção um mecanismo inconsciente de se afastar do sentir, da dureza do sentir. E assim foi crescendo. Desejoso de amparo no seu mais íntimo mas nem se permitir que tal pudesse ser olhado … seria mais difícil ainda … e foi-se descolando dos afetos para se proteger de tanta solidão e ausência …. E esforçando-se por trabalhar muito que era o esperado de si, e onde afinal ia conseguindo alguma valorização.

Décadas depois, Ana e João há muito que são um casal. Ela sente que se esforça imenso e que nunca se sente compreendida. Fica tensa , nervosa, zanga-se. E o João trabalha bastante. Passa cada vez menos tempo em casa. Sem que tenha total consciência, as tensões e nervos da Ana levam-no a fazer o que sabe fazer: afastar.se dos conflitos e dos sentires que o magoam. A Ana , por sua vez, faz o que sabe também …. esforça-se , exige a si e aos que ama, sente-se incompreendida no seu esforço, zanga-se ….

E mais uma vez a tensão da Ana afasta o João, e o afastamento do João deixa a Ana cada vez mais tensa. 

O que vem primeiro? Não há o que vem primeiro! A lógica é circular. Ambos sem que tenham plena consciência retroalimentam o comportamento um do outro num ciclo vicioso. A Ana alimenta o comportamento do João e este o da Ana. E à medida que se vão sentindo menos bem , os padrões com que cresceram e que serviram como mecanismos para sobreviver à dor, vão estando cada vez mais presentes numa retroalimentação em escalada …. Escavando cada vez mais fossos ou erguendo cada vez mais muros entre ambos ….

Todos temos padrões… e isso não tem qualquer problema… desde que não nos prejudiquem…  

Os padrões que todos transportamos têm várias dimensões , mas há alguns, centrais, que na origem – ao longo do nosso crescimento – constituíram mecanismos (inconscientes) de fazermos face às dificuldades e dores. Na origem foram o modo que a criança e jovem tiveram, com os poucos recursos internos ainda dísponiveis, de lidar com a dor. E pode ter sido muito útil na altura face às condições vividas. Mas… em adultos, sem que o percebamos, continuamos a usar, tantas vezes, mecanismos similares … E ai , quando já poderíamos usar tantos outros mecanismos …. vamos recorrer aos conhecidos… aqueles que o cérebro  e os seus os caminhos neuronais, já tem agilizados para situações de dor …

E esta circularidade pode tomar tantas outras formas … Tantas delas em processos de escalada que em nada ajudam nem o par , nem cada um dos indivíduos ….

E isto é tanto mais verdade quanto mais sentimos as nossas expectativas goradas, quanto mais nos sentimos suscetíveis …. 

Nos tempos que vivemos,  de peso coletivo, de restrições, de ausência de partilha com tantos … mesmo para aqueles que não conhecem mais de perto a dor da pandemia (perda de alguém próximo, dificuldades económicas muito graves…),  a tensão existe …E com ela abrem-se mais as nossas suscetibilidades …. 

Num clima de tensão, e até de termos menos distratores externos , somos mais facilmente confrontados com partes de nós, que olhávamos menos, ou que com o sermos “espremidos” pela tensão mais facilmente emergem …a nossa criança interna ferida … a suscetibilidade em diferentes formas…. 

E se a suscetibilidade de cada elemento do casal está mais ativada, e se nenhum dos dois está consciente do que emerge ….é fácil defenderem-se ambos dos modos que a criança ferida melhor conhece… e desenvolverem uma circularidade que não alimenta a evolução do par , nem de nenhum dos elementos; e que ao invés disso, gera cada vez mais dor para ambos os lados … Mais distância, mais angústia …

Mas as coisas podem ser diferentes …. Se esta emergência mais frequente da nossa criança interna ferida se fizer num contexto- com ajuda ou sem ela, conforme cada casal o sinta – no qual cada elemento do casal se permite olhar de frente para as suas suscetibilidades, e invés de lidar com elas do jeito que aprendeu há muito para delas se defender (zangando-se, fechando-se, vitimizando-se, sabotando-se a si próprio, sabotando o outro …), olhá-las de frente. Permitir-mo-nos a consciência dessa dor, compreender de onde vem a sua fonte … e ao invés  de nos defendermos,  compreendermos e aceitarmos que também somos essa parte , aceitar que a podemos partilhar com a pessoa com quem escolhemos dividirmos grande parte do nosso caminho. E nesse caminho  de  tornar mais consciente e mais visível, nessa partilha cúmplice com o nosso par , permitir-mo-nos ir sentindo que esse lado de nós se vai sanando  quando o olhamos , quando aceitamos que também faz parte do nosso ser, quando o partilhamos com o outro. E neste processo, vai acontecendo a transformação.  A transformação pessoal e do par. Parece simples! Mas é na verdade uma profunda mudança de olharmos para nós e para o outro, e de produzir uma comunicação e sentir completamente diferente. É a diferença entre os muros, os nós circulares que cada vez se enredam mais… e a possibilidade de estarmos de modo mais genuíno conoco e com o outro. Mais autêntico. Mais profundo. Em verdade com o próprio e com o outro. Com amor e compaixão por cada elemento do par e o desejo de evolução recíproca. 

Este processo que amplia intensamente a compreensão do eu e do outro,  ajusta dinâmicas de um par  que promovem intensamente a cumplicidade – o lugar onde tudo pode ser olhado com mais compreensão e compaixão – são de uma profundidade e riqueza intensa para cada elemento e para o par. Uma riqueza que permite ficarem cada vez menos reféns de lugares que ao invés de acrescentar só alimentam mais a dor e desorientação da criança interna que nos habita, enquanto se defende o ego da dor, do modo que lhe é mais conhecido. 

E porque na relação de casal depositamos por excelência expectativas de sermos compreendidos, amados, valorizados,  este é um “palco” excelente onde mais facilmente vêm ao de cima partes da nossa criança ferida. E por isso mesmo, poderão ser palcos de lutas / escaladas e desilusões crescentes …. ou lugares onde vamos aprendendo a melhor olhar as nossas partes e do outro , melhor aceitar, melhor gerir, melhor sanar. Num processo de evolução pessoal e relacional que se faz a cada dia. Porque as feridas têm muitas camadas.

E do nosso era uma vez…. A Ana e o João, que optaram por procurar ajuda numa fase em que se viram confrontados com intensas dificuldades com um dos filhos adolescentes, olharam cada vez melhor as suas próprias angústias de desamparo,  e para o modo que cada um ativava para delas de defender. A Ana aprendeu aos poucos, que as suas exigências, zangas e sentir-se vitima (eu esforço-me tanto e ninguém me compreende), não eram um bom lugar para fortalecer canais de amor.  O João permitiu olhar-se para a criança interna que o habitava e que fugia com quantas forças tinha à dor e tensão, para a sua fuga ao sentir algo mau … e também ele compreendeu que nessa posição nunca poderia de facto viver cumplicidade e expressão de amor consistente. E foram gerando processos de transformação … 

E um João que assume que quer sentir proximidade e o diz à Ana; que quer que consigam expressar-se sem nervos …. e que quer não fugir mas saber dizer o que sente; ou uma Ana que percebe que a sua exigência para consigo e para com os outros não a protege a si nem aos que ama e que lhes subtrai espaço e tende a afasta-los, uma Ana que diz ao João que sente falta dele e que quer que saibam estar mais próximos sem se zangar …. Parecem coisas simples mas comportam profunda transformação!

O contexto atual faz emergir com mais frequência e intensidade o que já lá está. Porque é natural que nos deixe mais suscetíveis. Mas pode, se o permitirmos , ou se pedirmos ajuda se dela sentirmos necessidade,  que olhemos mais além. Para não nos assustarmos com as nossas próprias sombras, para as olharmos de mais ângulos, melhor as compreendermos, melhor as integrarmos. E permitir-mo-nos fazê-lo também naquele que é um dos palcos principais da nossa luz e das nossas sombras: a relação com o nosso companheiro, com o nosso par. Permitir-mo-nos num processo de autenticidade imprescindível à  profundidade e intimidade – sim porque não acedemos à intimidade sem profunda autenticidade –  sanarmos partes de nós, crescermos individualmente e enquanto par. É o confronto entre as defesas do ego que conhecemos e agimos precocemente, e o ver e estar para lá das máscaras. É um salto imenso na percepção de nós e do outro, no estar conosco e com o outro. No estar na vida e com a vida.

E porque falamos de  processo de crescimento relativo a um par,  fecho com as 5 fases do amor de que falam alguns autores: Paixão, comprometimento, desilusão, amor real e transformação. 

Muitos dos casais , ficam pela fase 3,  onde o confronto com as fragilidades do outro e com a desidealização do outro, vai desencantando; onde, como referíamos atrás, as defesas precoces de cada ego se retroalimentam e ampliam as sombras de cada um, num paradoxo onde o próprio ego é o traidor da intimidade.

Chegar à fase 4, que alguns autores chamam de amor verdadeiro, implica a assunção e integração das fragilidades do outro, e das nossas, para sairmos dos ciclos que alimentam o menos saudável de cada um, e não ficarmos presos , numa relação que se deseja de intimidade, às prisões para onde muitas vezes nos remetem as nossas defesas antigas.

 A fase 5 , será algo como um caminho de amor que potencia cada um dos seres, mas que vai mais além….O amor que constroí sonhos para o bem comum. Entendem que tudo o que passaram no seu processo de transformação pessoal e de casal, pode ser aplicado na transformação de um  mundo melhor.  

Carla Abranches  _ Psicóloga Clínica / psicoterapeuta

Cédula profissional nº 18763